A QUESTÃO DA VERDADE NA FILOSOFIA
Descrição
Não haveremos de insistir na necessidade existencial da verdade, matriz e fonte de todas as necessidades, como de todos os esforços para solucioná-las. Além disso, a verdade e sua necessidade existem muito antes de as podermos definir e com a amplitude que não teríamos condição alguma de determinar. Um exemplo notável está aos olhos de todos. A recente crise econômica mundial é o resultado de uma “verdade” de gestão financeira, que se 3 “Pensamos aqui a guarda no sentido do recolhimento iluminador que abriga, sob cuja figura se anuncia um traço fundamental e até aqui velado, da presença, isto é, do ser. Um dia aprenderemos a pensar nossa desgastada palavra “verdade” (Wahrheit) a partir da guarda (Wahr) e aprenderemos que verdade é a salvaguarda do ser, e que ser, enquanto presença, dela faz parte”. A sentença de Anaximandro. In: Pré_x0002_socráticos, p. 39-40. 2 Theoria - Revista Eletrônica de Filosofia descobriu, apesar de todos os cálculos e projeções, uma ficção ou mentira, que desencadeou por todo o mundo um terremoto de que ainda não conhecemos todas as conseqüências. Que razões teriam presidido a essas formas de vida econômica, política, social, que se mostram hoje tão fragilizadas, líquidas e descartáveis? Elas se enraízam certamente no ethos da Modernidade, construído à base de concepções idealistas da Verdade, cujos nomes nos são bem conhecidos: idealismo-racionalismo, pragmatismo, relativismo, niilismo, devendo-se acrescentar o voluntarismo e a hermenêutica, que também têm sua pretensão de verdade. Kant não é, certamente, o pai geral de todas essas tendências. Mas é quem “desnaturalizou” com mais radicalidade a antiga e venerável noção da verdade-adequação, oriunda de Aristóteles. Mas talvez devamos recuar até Descartes, para o qual, como é muito sabido, a ordem de fundamentação da filosofia inicia-se na mente, e não na natureza das coisas. Pretende construir seu sistema tendo por base uma verdade absolutamente indubitável: Eu penso, logo sou (Cogito, ergo sum). Ele analisa essa idéia-base em suas características constitutivas, para admitir como verdadeira qualquer idéia que àquela se assemelhe. “As coisas que concebemos clara e distintamente são todas verdadeiras”, vai escrever na quarta parte do Discurso de Método. Na realidade, essa proposição dependerá de outra que afirme (ou postule) a existência de Deus e sua absoluta e essencial veracidade. Vale dizer, que o critério de verdade das proposições, além da verdade do cogito, está suspenso à existência de Deus, que é veraz e não pode nos enganar. Percebe-se que o pensamento cartesiano gira em torno de si mesmo e, de certo modo, se vê obrigado a apelar para algo objetivo e que, entretanto, é sempre subjetivo. Clareza e distinção de idéias são condição ou critério de verdade, mas não são a verdade, e não permitem à consciência sair do seu radical isolamento subjetivo.
Informações Técnicas
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- Categoria: Filosofia
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- Tipo: Outro
- Idioma: Português