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Aids na terceira década

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Descrição

Se acaso uma cartomante me dissesse, aos 22 anos, quando decidi concluir o curso médico no internato regular, rotatório, nas especialidades clínicas, recusando o convite para ingressar num laboratório de neurofisiologia, que viria a escrever, anos depois, este pequeno livro, ponderaria eu tratar-se de remata_x0002_da tolice. Conselhos não costumam frutificar (pois, afinal, ‘se valessem de algo, não seriam dados, mas sim vendidos’, como se diz popu_x0002_larmente), mas quem sabe o meu singelo exemplo sirva aos mais jovens como confirmação de que o destino segue caminhos in_x0002_sondáveis, e, que por isso mesmo, cabe acreditar na intuição e não dar muitos ouvidos às pessoas de mente por demais estreita. Revejo o rapaz de 22 anos, apaixonado por conhecimentos que, até então, julgava incompatíveis: as neurociências e a litera_x0002_tura. As doenças infecciosas eram, então, uma cadeira que cursei sem maior interesse, que não o de atender os pacientes de for_x0002_ma digna. Em uma prateleira empoeirada, no fundo de uma livraria, descobri certo dia um velho livro do neurocientista inglês Charles Sherrington. O seu texto profundo, repleto de reflexões 12 ] filosóficas e escrito num inglês literário da melhor estirpe, resol_x0002_veu para sempre meu eterno conflito de gostos – era possível, sim, compatibilizar ciência e literatura. Pouco tempo depois, meu apetite por livros estranhos e empoeirados (há gostos bizarros nesta vida!), me fez topar com um outro autor que viria a ser meu mestre ao longo de toda a vida, o matemático, lingüista e pensador norte-americano Norbert Wiener. Nascia, então, uma nova paixão, jamais corres_x0002_pondida, por uma terceira vertente do conhecimento humano – as ciências ditas exatas, como a matemática, a estatística e a física. O caminho que me conduziu desse, por si só já confuso, estado de coisas ao estudo da Aids não poderia ser mais inespe_x0002_rado. Inicialmente convidado a trabalhar em uma Clínica de Dor na Universidade onde estudava, constatei pela primeira vez como meus conhecimentos sobre o cérebro humano eram, não ape_x0002_nas insuficientes, mas, antes de tudo, incapazes de minorar o sofrimento de muitos dos meus pacientes. Impotente diante das dores do mundo, em um sentido tanto metafórico como concreto, aceitei de bom grado o convi_x0002_te para trabalhar num serviço recém-inaugurado de pesquisa e assistência a usuários de drogas, onde julguei que meus conheci_x0002_mentos poderiam ser, talvez, mais úteis. Nova decepção: então, com 25 anos, me deparei com as agruras da dependência quími_x0002_ca, que conhecia, até então, tão-somente pela vertente contracul_x0002_tural das festas e da experimentação de substâncias psicoativas diversas que caracterizaram os anos 60 e 70. Como se não bastasse, enquanto entrevistava os pacientes e redigia minha dissertação de mestrado, comecei a ver os pri_x0002_meiros indivíduos acometidos por uma doença misteriosa, que, à época, diziam ser uma ‘peste gay’, o que não correspondia ao [ 13 perfil dos pacientes que atendia. A perplexidade diante do que representava para mim uma terceira e definitiva derrota – a dor, a dependência e, agora, o sofrimento e a morte anunciada – me fez duvidar do acerto em escolher minha profissão, pois no meu íntimo não me sentia digno do preceito básico que havia jurado cumprir: aliviar o sofrimento humano. Por um par de anos, praticamente me afastei da medici_x0002_na, trabalhando antes como editor e tradutor de livros sobre temas os mais diversos. Decidido a voltar à medicina em tempo integral, e, agora sim, à pesquisa, resolvi enfrentar o desafio pos_x0002_to pela Aids munido de todos os recursos de que pudesse dispor. Passei a estudar dia e noite diversos dos seus aspectos, desde a arquitetura dos vírus aos aspectos sociais e culturais de um fenômeno que se tornara mundial. Este livro reflete algo dessa trajetória.

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